Hasta las Piedras, Monca!
Há histórias que eu conto com facilidade. Algumas até exagero
um pouco, acrescento um detalhe aqui, outro ali, apenas para provocar
uma risada. Outras vão ficando esquecidas, cobertas pela poeira dos
anos, até que um cheiro qualquer, uma música ou uma palavra as
trazem de volta. Esta não. Esta nunca foi embora. Ela continua
comigo desde aquele inverno que virou primavera, depois verão, e até
hoje, quando paro num semáforo em Welland e vejo um mexicano
pedalando uma bicicleta velha em direção ao Value Village, por um
segundo eu ainda procuro aquele rosto moreno, aquele sorriso largo e
aquela voz grave que sempre chegava antes dele.
"¡Hola, familia! ¿Qué tal?"
Às vezes penso que essa história é sobre um homem chamado
Alfredo Moncada. Outras vezes acho que ela é sobre liderança. Em
alguns dias tenho certeza de que ela é sobre amizade. Nos dias mais
difíceis, porém, ela é apenas sobre mim. Sobre um homem que
descobriu, tarde demais, que nem sempre é possível proteger ao
mesmo tempo um amigo, a própria consciência e a família que o
espera em casa.
Ainda hoje não sei se fui covarde ou apenas humano.
Quando cheguei ao Canadá, eu ainda enxergava aqueles
trabalhadores mexicanos quase como um grupo uniforme. Eram muitos.
Vinham todos os anos pelo mesmo programa, falavam espanhol entre si,
trabalhavam como poucos homens que já conheci e, quando a temporada
terminava, desapareciam tão rapidamente quanto haviam chegado.
Bastaram alguns meses para eu perceber como estava errado.
Cada um trazia uma história inteira escondida dentro de uma
mochila.
Alguns construíam casas no México. Outros pagavam a universidade
dos filhos. Havia quem sustentasse os pais idosos, quem pagasse
tratamentos médicos, quem juntasse dinheiro para comprar algumas
vacas ou um pequeno pedaço de terra. Todos tinham um motivo para
suportar oito meses longe de casa.
E havia o Monca.
Não me lembro da primeira conversa que tivemos. Curiosamente,
nunca lembro das primeiras conversas importantes da minha vida. Elas
costumam começar falando sobre alguma bobagem e, quando percebemos,
já fazem parte da nossa história.
O Monca era impossível de ignorar.
Falava alto.
Cantava.
Gesticulava como se brigasse com o vento.
À distância, muitas vezes eu sabia exatamente onde ele estava
apenas pelo som da sua voz. Era daqueles homens que conseguem
transformar um trabalho pesado em alguma coisa um pouco mais leve
simplesmente porque não suportam o silêncio.
Com o tempo, fui descobrindo outras coisas.
Tinha uma filha com uma síndrome gravíssima, praticamente sem
movimentos. Todos os anos a deixava no México para passar oito meses
plantando árvores num país onde o inverno parecia não terminar
nunca. Nunca o ouvi reclamar da vida. Contava da filha com uma
mistura difícil de explicar. Orgulho, amor, preocupação... e um
certo cuidado ao observar a reação das pessoas, como quem ainda
esperava descobrir se elas enxergariam primeiro a menina ou a
deficiência.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido sentir pena dele.
Sentia respeito.
Os depoimentos terminaram e, para minha surpresa, o Monca e o
Lauro voltaram a trabalhar normalmente na segunda-feira. Aquilo me
deu um pouco de esperança. Se ambos tinham voltado, imaginei que
talvez a empresa entendesse que a briga havia sido um episódio
isolado, daqueles que infelizmente acontecem quando homens trabalham
tantas horas por dia, durante tantos meses, longe de casa e das
pessoas que amam.
Naquela semana aconteceu uma coisa que hoje quase ninguém
acreditaria se eu contasse apenas o final da história.
O Monca e o Lauro fizeram as pazes.
Não foi porque alguém mandou.
Não foi porque o RH exigiu.
Foi porque os dois resolveram conversar.
Voltaram a cozinhar juntos algumas vezes, dividiram a mesa,
olharam um para o outro como dois homens que tinham perdido a cabeça
por alguns minutos e agora tentavam seguir em frente. Nunca tive a
impressão de que eles se tornariam grandes amigos, mas existia entre
os dois um esforço sincero para deixar aquela briga para trás.
Aquilo me deu ainda mais esperança.
Passei a conversar bastante com o Lauro. Curiosamente, nossas
conversas quase nunca eram sobre a briga. Eu falava da vida.
Perguntava sobre Chiapas, sobre as vacas que ele comprava, sobre os
planos para o futuro. Em algum momento disse que ele ainda era um
homem relativamente novo, que talvez um dia encontrasse uma
companheira, constituísse uma família e percebesse que algumas
amizades valem muito mais do que uma discussão por causa de algumas
plantas mal descarregadas. Não sei se aquelas palavras fizeram algum
sentido para ele. Talvez não. Mas eu precisava acreditar que as
pessoas podiam mudar.
Enquanto isso, o Sa... fazia o que estava ao seu alcance.
Quase todos os dias conversávamos um pouco sobre o assunto. Ele
também acreditava que mandar o Monca de volta para o México seria
uma punição desproporcional. Não porque a briga devesse ser
ignorada. Ela não deveria. Dois homens haviam trocado socos dentro
da empresa e isso precisava ter consequências. O que tentávamos era
encontrar uma consequência que não destruísse quatro anos de um
bom trabalhador por causa de alguns minutos de descontrole.
A impressão que eu tinha era que o Sa... ia costurando uma
solução possível, tentando convencer quem precisava ser
convencido. A Ro..., por outro lado, parecia enxergar a situação de
outra maneira. Nunca tive a impressão de que ela estivesse
preocupada apenas com a briga. Para ela, aquele episódio parecia
confirmar preocupações que já existiam havia algum tempo sobre a
forma como administrávamos o Potting Barn.
Anos depois, quando li o relatório, tive ainda mais essa
impressão.
Curiosamente, a investigação sobre a nossa forma de trabalhar
terminou sem grandes mudanças. O modelo permaneceu praticamente o
mesmo. Continuamos contando com as lideranças naturais que existiam
antes. Continuamos distribuindo responsabilidades de acordo com a
experiência de cada um. Continuamos conversando muito mais do que
escrevendo advertências.
No fim das contas, a estrutura permaneceu de pé.
Mas um homem não.
Havia outro detalhe que tornava tudo ainda mais doloroso.
Pouco tempo antes daquela briga, o Monca havia recebido uma
autorização especial para voltar ao México durante uma semana.
Isso não era comum.
Os trabalhadores quase nunca interrompiam a temporada para viajar
e voltar depois. Quando acontecia, a passagem precisava ser paga por
eles mesmos.
O motivo daquela viagem era bonito.
O filho dele estava se formando no equivalente ao nosso ensino
médio e também faria a crisma.
Ele não queria perder aqueles dois momentos.
Pagou do próprio bolso para estar alguns dias com a família e,
poucas semanas depois, voltou ao Canadá para terminar a temporada.
Lembro de pensar nisso várias vezes enquanto tudo acontecia.
Ele já tinha feito um gasto enorme.
Tinha acabado de retornar.
Ainda havia muitos meses de trabalho pela frente.
Tudo aquilo pesava dentro de mim cada vez que imaginava qual
poderia ser a decisão da empresa.
Foi justamente nessa semana que minhas férias começaram.
Engraçado como a vida escolhe mal as datas.
Eu quase nunca tirava férias durante a temporada. Quando
finalmente chegou minha vez, parecia que minha cabeça continuava
presa ao Potting Barn.
Na sexta-feira, antes de ir embora, aconteceu uma cena que ainda
hoje consigo enxergar com uma nitidez absurda.
Sempre fui um dos últimos a bater o ponto.
Nunca gostei de sair correndo. Costumo esperar um pouco, vou me
despedindo de um, agradecendo outro, perguntando como está a família
de alguém. É um costume que talvez tenha herdado do meu pai. Nunca
pensei muito nisso.
Naquele dia o Monca veio até mim sorrindo, como fazia todas as
sextas-feiras.
— Hasta lunes, Marcelo.
Respondi que não.
Expliquei que estaria de férias naquela semana.
Foi uma conversa de menos de trinta segundos.
Ele sorriu, desejou boas férias e saiu.
Fiquei olhando enquanto ele se afastava.
Foi a primeira vez que pensei, com uma tristeza difícil de
explicar:
"Talvez esta seja a última vez que eu veja esse homem
trabalhando aqui."
Não falei nada.
Nem poderia.
Apenas observei o Monca voltar para os outros mexicanos como se a
vida estivesse exatamente igual ao dia anterior.
Ela já não estava.
Só ele ainda não sabia.
Saí de férias, mas minha cabeça não saiu da Wi....
Quem trabalha muitos anos no mesmo lugar acaba levando o serviço
para casa sem perceber. No meu caso, acho que levei até para o
camping.
O Bruce Peninsula é um daqueles lugares que conseguem me colocar
em paz. Talvez porque me lembre um pouco do interior onde cresci. Não
pela paisagem, que é completamente diferente, mas pelo silêncio.
Gosto de acordar cedo, antes das crianças, preparar um café
simples, sentir o cheiro da mata ainda úmida da noite e ficar
olhando o lago enquanto o resto do camping desperta devagar.
Normalmente, bastam dois ou três dias para eu esquecer completamente
do trabalho.
Naquele ano não aconteceu.
Era como se uma parte de mim tivesse ficado andando entre aquelas
casas de crescimento da Wi..., tentando adivinhar o que aconteceria
na segunda-feira seguinte.
A Adriana percebia.
Não precisava perguntar muita coisa.
Às vezes caminhávamos pela trilha do Grotto, ou preparávamos
alguma coisa para comer, e ela simplesmente comentava:
— Você está pensando no Monca, não está?
Eu respondia qualquer coisa.
Mudava de assunto.
Falava das crianças.
Da água incrivelmente transparente do lago.
Da trilha.
Mas bastava ficar alguns minutos em silêncio para minha cabeça
voltar exatamente ao mesmo lugar.
Talvez por isso aquela cena em Welland tenha ficado gravada com
tanta força na minha memória.
Estávamos saindo para viajar.
O carro completamente entulhado. Barraca, colchões, panelas,
cadeiras, bicicletas das crianças... parecia impossível caber mais
alguma coisa ali dentro.
Paramos num semáforo.
Olhei para a direita. Coincidência… não creio!
Lá vinha o Monca.
De bicicleta.
Era sábado.
Os mexicanos quase sempre vinham para Welland aos sábados.
Aproveitavam para comprar algumas roupas no Value Village, alguma
ferramenta usada, um rádio, uma panela, qualquer coisa que pudesse
facilitar aqueles meses longe de casa. Muitos não tinham carro. A
bicicleta era a liberdade deles.
Abaixei o vidro.
Levantei a mão.
Antes mesmo que eu gritasse qualquer coisa, o Pedro e o Benício
já estavam praticamente pendurados na janela.
— ¡Hola, Monca!
Ele olhou para o carro, abriu aquele sorriso enorme e respondeu
exatamente como fazia sempre.
— ¡Hola, familia! ¿Qué tal?
Durou cinco segundos.
Talvez menos.
O sinal abriu.
Ele seguiu pedalando.
Eu acelerei.
Ninguém falou mais nada.
Acho que foi aí que escapou.
Não foi uma frase preparada.
Não foi um desabafo.
Foi apenas um pensamento que saiu alto demais.
— Poxa que pena...
Fiquei alguns segundos olhando pelo retrovisor, vendo aquela
bicicleta ficar cada vez menor.
— Acho que nunca mais vamos nos encontrar.
Quando terminei de falar, percebi que todos tinham escutado.
Olhei rapidamente para a Adriana.
Depois para o espelho.
Os meninos estavam quietos.
Ninguém perguntou por quê.
Ninguém comentou nada.
Foi um daqueles silêncios em que cada pessoa entende uma coisa
diferente, mas todas percebem que alguma coisa importante acabou de
acontecer.
Dois ou três dias depois o telefone tocou.
No Bruce Peninsula o sinal de celular nunca foi grande coisa.
Dependendo do lugar, uma ligação parecia uma conversa feita debaixo
d'água.
Olhei para a tela.
Era o Monca.
Atendi imediatamente.
A voz dele entrava e desaparecia.
Eu caminhava pelo camping procurando um lugar onde o telefone
funcionasse melhor.
A ligação falhava de novo. Não consegui entender quase nada.
Mas também não precisava.
Há notícias que chegam inteiras mesmo quando ouvimos apenas
metade das palavras.
Lembro claramente apenas de uma frase.
— Adiós entonces... porque ya me botaron...
Depois a ligação começou a cortar novamente.
Dissemos poucas coisas.
Nem sei exatamente como terminou.
Fiquei alguns minutos parado olhando para o telefone, como se ele
ainda pudesse tocar outra vez.
Voltei para perto da família.
As crianças estavam brincando.
A Adriana olhou para mim e perguntou apenas:
— Era o Monca?
Balancei a cabeça.
Ela entendeu.
Não foi preciso dizer mais nada.
Naquele dia percebi uma coisa estranha.
Eu estava exatamente onde deveria querer estar.
De férias.
Com minha esposa.
Com meus filhos.
Num dos lugares mais lindos do Canadá.
E, mesmo assim, havia uma tristeza enorme ocupando espaço dentro
de mim.
Não era culpa.
Ainda não.
Era uma sensação de fracasso.
Como se eu tivesse passado semanas tentando impedir que aquilo
acontecesse e, no fim, não tivesse conseguido mudar absolutamente
nada.
Passei a caminhar mais sozinho pelo camping.
Não porque quisesse ficar longe da minha família.
Mas porque precisava organizar meus próprios pensamentos.
Volta e meia me perguntava se deveria ter feito alguma coisa
diferente.
Se não tivesse chamado a Ro..., será que tudo teria terminado de
outro jeito?
Será que o Sa... conseguiria resolver aquilo apenas conversando?
Será que a briga teria sido esquecida?
Ou será que eu estaria apenas adiando um problema maior?
Nunca encontrei resposta.
Até hoje não encontrei.
Quando voltamos para casa, no domingo à tarde, depois de deixar
Adriana e os meninos em Buffalo, fiquei alguns dias olhando para o
telefone.
Pensei em ligar para o Monca.
Cheguei a pegar o celular algumas vezes.
Depois colocava novamente sobre a mesa.
No fim, fiz o que quase sempre faço quando preciso escolher
cuidadosamente as palavras.
Escrevi.
Não me lembro de tudo exatamente como aconteceu.
Lembro apenas da sensação.
Queria que ele soubesse que eu não o havia abandonado.
Que eu lamentava profundamente o que tinha acontecido.
Que continuava pensando nele.
Que minha amizade não tinha terminado junto com o contrato de
trabalho.
Escrevi que aprendemos com os erros.
Que ele era um homem forte.
Que aproveitasse aqueles dias ao lado da família.
Que a Adriana continuava lembrando dele.
Em algum momento pedi desculpas pelos meus próprios erros.
Essa talvez tenha sido a frase mais sincera de todas.
Porque eu realmente não sabia quais tinham sido.
Sabia apenas que existiam.
No fim da conversa escrevi que, se algum dia precisasse de alguma
coisa — qualquer coisa que estivesse ao meu alcance — eu
continuaria ali.
Ele respondeu pouco.
Como quase sempre acontecia quando o assunto era sério.
E terminou com uma frase simples.
"OK Marcelo... adiós."
Fechei o WhatsApp.
Fiquei algum tempo olhando para a tela apagada do celular.
Às vezes penso que a amizade termina quando duas pessoas brigam.
Hoje acho diferente.
Às vezes ela termina quando já não há mais nada que possa ser
dito.
...Quando voltamos para Welland, o telefone ficou dois dias em
cima da mesa da cozinha. Pensava em ligar para o Monca. Começava a
imaginar a conversa inteira, mas, quando pegava o celular na mão,
alguma coisa me fazia colocá-lo de volta sobre a mesa. Acho que, no
fundo, eu não sabia por onde começar. Há conversas que não
melhoram nada. Apenas colocam em palavras uma dor que os dois já
conhecem.
Acabei fazendo aquilo que faço desde menino quando não encontro
as palavras certas para dizer olhando nos olhos de alguém.
Escrevi.
A conversa continua guardada no WhatsApp até hoje. Curiosamente,
as primeiras mensagens não têm nada de especial. São ordens de
serviço. "Depois da B23 vai para a B59." "O caminhão
oito já saiu?" "Break às cinco." É engraçado como
a vida funciona. Durante anos, nossa amizade cabia entre caminhões,
casas de crescimento, listas de plantas e pequenos problemas do dia a
dia. A gente nunca imagina que, um dia, aquelas mensagens tão banais
vão se transformar quase num álbum de fotografias.
Quando ele me perguntou se eu sabia de alguma novidade, respondi
que estava conversando com o Sa..., que ele queria entender melhor o
que tinha acontecido para tentar defendê-lo diante do Chris. Naquele
momento eu ainda acreditava sinceramente que existia espaço para uma
solução menos dura. Talvez por isso a ligação do camping tenha me
derrubado tanto.
Depois escrevi tudo aquilo que um amigo escreve quando já percebe
que não pode mudar os fatos. Disse que lamentava muito. Que
continuávamos aprendendo com nossos próprios erros. Que ele era um
homem forte. Que a Adriana lembrava dele e da família. Que, se algum
dia precisasse de alguma coisa — qualquer coisa que estivesse ao
meu alcance, menos dinheiro, porque eu sempre brincava com isso —
bastava me procurar. Em algum momento pedi desculpas pelos meus
próprios erros. Curiosamente, nunca expliquei quais eram. Acho que
nem eu saberia explicar naquela época. Apenas sentia que também
carregava uma parte daquele peso.
O Monca respondeu pouco, como sempre fazia quando o assunto era
sério. Nunca foi um homem de escrever grandes textos. Preferia
conversar olhando nos olhos. Mesmo assim, aquelas poucas palavras me
acompanharam durante muito tempo.
Muita gente imagina que a amizade terminou ali.
Não terminou.
Apenas deixou de ser uma amizade construída entre vasos de
plantas.
Outro dia lembrei de uma despedida muito antiga. Um grande amigo
meu estava indo embora e, tentando esconder a tristeza, eu disse
brincando:
— Então... até nunca mais.
Ele sorriu e respondeu uma frase que nunca esqueci.
— Nada disso. Até as pedras se reencontram.
Na época achei bonita a resposta. Anos depois, andando pelas ruas
do Rio de Janeiro, encontrei esse mesmo amigo completamente por
acaso. Parei no meio da calçada e comecei a rir sozinho. Ele tinha
razão. Até as pedras se reencontram.
Talvez seja por isso que eu nunca consegui dizer "adeus"
ao Monca.
Prefiro pensar que a vida apenas nos colocou em estradas
diferentes.
E, quem sabe, algum dia, numa rua qualquer, num mercado perdido do
México ou numa esquina improvável de Welland, eu ainda escute
aquela voz grave atravessando o barulho do mundo:
— ¡Hola, Marcelo! ¿Qué tal?
E eu provavelmente responderei como se tivéssemos nos visto na
semana passada.
Porque algumas amizades não acabam quando o trabalho termina.
Elas apenas aprendem a morar na memória enquanto esperam,
pacientemente, que a vida volte a cruzar os caminhos.