domingo, 12 de julho de 2026

Depois de Bruce Peninsula

 

Depois de Bruce Peninsula

Uma carta para Adriana, Benício e Pedro

Julho de 2026

Meus amores,

Escrevo esta carta depois de uma semana maravilhosa em Bruce Peninsula.

As barracas ainda estão secando no quintal. Os sacos de dormir ainda precisam ser dobrados. As cadeiras de camping continuam espalhadas. O carro ainda guarda um pouco de areia, cheiro de lago e migalhas de bolacha. Amanhã volto ao trabalho, volto às estufas, aos caminhões, aos cronogramas, às plantas, aos problemas, às contas da casa nova, ao telhado com mofo no sótão, ao aquecedor de água para instalar, à árvore enorme que preciso derrubar, ao caminhão da mudança...

A vida continua.

Mas hoje resolvi parar um pouco.

Passei horas conversando com uma inteligência artificial. Parece engraçado escrever isso. Talvez, quando vocês lerem, isso já seja algo absolutamente comum. Talvez pareça tão banal quanto hoje parece ligar para alguém por vídeo.

Mas essa conversa foi diferente.

Não porque a IA tenha me conhecido.

Mas porque, enquanto eu respondia às perguntas dela, fui me conhecendo um pouco melhor.

E percebi algumas coisas sobre mim que talvez eu nunca tivesse colocado em palavras.


Descobri que minha vida nunca teve raízes.

Durante muito tempo pensei que fosse um homem aventureiro.

Hoje acho que não.

A aventura era simplesmente o modo como a vida acontecia.

Minha mãe separou-se muito cedo de meu pai biológico.

Depois casou-se com o Cid.

Engenheiro.

Mudávamos de cidade como quem muda de roupa.

Pará.

Mato Grosso do Sul.

São Paulo.

Minas.

Outras cidades.

Outras escolas.

Outros amigos.

Novos vizinhos.

Novos começos.

Quando eu finalmente aprendia o nome dos colegas...

...já estava fazendo as malas outra vez.

Depois minha mãe separou-se novamente.

Perdi outra referência de pai.

Anos depois o Cid se suicidou.

Acho que nunca parei para olhar esse percurso inteiro.

Sempre considerei isso apenas a minha história.

Hoje percebo que não era uma infância comum.


Lembrei de um desenho.

Antes mesmo de aprender a escrever, fui levado a uma psicóloga.

Eu quebrava brinquedos.

Brigava.

Tinha crises de raiva.

Ela pediu que eu desenhasse uma casa.

Desenhei uma casa sem porta.

Sem janela.

Ela perguntou:

— Por que essa casa não tem porta nem janela?

Respondi:

— Porque eu não quero ninguém entrando nem saindo mais da minha vida.

Nunca esqueci essa história.

Mas hoje ela ganhou um significado novo.

Talvez aquele menino não estivesse desenhando uma casa.

Talvez estivesse desenhando um coração.


Pensei muito no Cid.

Curiosamente...

Hoje quase nunca o chamo de "papai" dentro da minha cabeça.

Depois que ele morreu passei a chamá-lo de Cid.

Mas descobri outra coisa.

De vez em quando sonho com ele.

Não são sonhos estranhos.

Não brigamos.

Não discutimos.

Não há cobranças.

Apenas conversamos.

Como dois amigos.

Parece que ele continua vivo.

Acordo tranquilo.

Não me assusto.

Talvez algumas pessoas nunca saiam completamente da nossa história.


Também percebi uma coisa sobre vocês dois.

Benício.

Pedro.

Talvez eu escreva tanto porque um dia tive medo de esquecer.

Ou de que vocês esquecessem.

Ou, pior...

...de que um dia vocês duvidassem.

Duvidassem de que foram amados.

Duvidassem de que eu vi quem vocês eram.

Talvez seja por isso que escrevo tantas cartas.

Não para ensinar.

Mas para registrar.

Para dizer:

"Eu estava olhando."

Vi a coragem do Pedro na cirurgia.

Vi o tapa-olho usado por quase dois anos sem reclamar.

Vi a criatividade resolvendo uma briga por causa de uma boneca.

Vi o pequeno organizando uma Copa do Mundo na escola.

Vi o Benício levantar depois de cada derrota no tatame.

Vi suas perguntas impossíveis.

Vi suas crises de insônia.

Vi seu coração doendo pelos astecas.

Vi seus olhos brilharem quando aprendia francês.

Vi tudo.

Quero que um dia vocês saibam disso.


Também pensei muito na Adriana.

Meu amor...

Escrevi muitos poemas para você.

Você continua dizendo que não gosta deles.

Talvez continue certa.

Talvez eu realmente escreva demais.

Mas hoje percebi uma coisa.

Você sempre gostou muito mais da poesia vivida do que da poesia escrita.

Enquanto eu escrevia versos...

Você fazia o jantar.

Lavava roupa.

Dormia abraçada nos meninos quando estavam doentes.

Preparava uma bolsa gigantesca para a cirurgia do Pedro.

Dormia pouco.

Trabalhava.

Organizava a casa.

Plantava a poesia no concreto da vida.

Talvez eu sempre tenha escrito sobre isso.

Você simplesmente fazia.


Hoje me perguntaram onde eu poderia estar errando como pai.

Gostei da pergunta.

Porque eu também me faço essa pergunta.

Talvez eu tente ensinar demais.

Talvez interprete demais.

Talvez transforme tudo em aprendizado.

Vou tentar cuidar disso.

Nem toda pescaria precisa ensinar alguma coisa.

Nem todo camping precisa virar filosofia.

Às vezes basta ser divertido.

Prometo tentar rir mais.

Brincar mais.

Fazer guerras de Nerf sem procurar metáforas.


Mas lembrei de uma cena.

Aquela do diesel.

Como pude colocar diesel no Honda?

Que erro absurdo.

Naquele dia pensei que talvez tivesse colocado em risco nosso projeto inteiro de imigração.

Sentei com vocês na escada.

Quase chorei.

Na verdade chorei por dentro.

Pedi desculpas.

Reconheci meu erro.

Expliquei que estava triste.

Disse que iria consertar.

Hoje percebo que talvez aquela tenha sido uma das melhores aulas que consegui dar.

Não porque errei.

Mas porque não escondi o erro.


Também lembrei do futebol.

Benício perguntou certa vez:

— Papai, por que você não vira técnico do nosso time?

Respondi:

Porque vocês precisam conhecer outros homens.

Outros líderes.

Outras referências.

O professor de Jiu-Jitsu.

Os professores.

Os tios.

Os avós.

Os amigos.

As viagens ao Brasil.

Hoje continuo acreditando nisso.

Não quero ser o centro do universo de vocês.

Quero apenas ser um porto seguro.

A vida vai apresentar muitos homens admiráveis.

Espero que alguns deles também ajudem a construir quem vocês serão.


Descobri outra coisa sobre mim.

Passei muitos anos tentando construir.

Casa.

Trabalho.

Livro.

Família.

Imigração.

Pensei que fosse por ambição.

Hoje acho que não.

Talvez eu apenas estivesse tentando construir o lugar onde aquele menino da casa sem portas finalmente pudesse descansar.

Curioso...

Hoje nossa casa tem portas.

Tem janelas.

E o mais bonito...

Tem duas crianças entrando com a própria chave depois da escola.

Acho isso simbólico.


Pedro.

Continue sendo esse menino que encontra soluções onde os adultos enxergam problemas.

Nunca perca esse talento.

O mundo precisa desesperadamente de gente que faça dois amigos brigando pela mesma boneca descobrirem que um pode ser o pai e o outro a mãe.

Você fez isso aos nove anos.

Pouca gente consegue fazer isso aos cinquenta.


Benício.

Nunca esqueça daquele dia em que você saiu ensopado de suor do Jiu-Jitsu.

Você disse:

— Empatei duas.

Ainda dou risada sozinho lembrando disso.

É muito sua cara.

Você encontra pequenas vitórias onde quase todo mundo enxergaria apenas derrotas.

Não perca isso.

É um superpoder.


Adriana.

Se um dia eu morrer antes de você...

...espero que leia esta parte sorrindo.

Obrigado.

Obrigado por ter construído uma infância bonita para nossos filhos.

Obrigado por ter aceitado sair do Brasil.

Obrigado por ter enfrentado os invernos.

Obrigado por cuidar da casa quando eu não conseguia.

Obrigado por não desistir de mim nem quando eu escrevia poemas ruins.

Você foi muito mais corajosa do que costuma admitir.


Aos três.

Não sei onde vocês estarão quando lerem esta carta.

Talvez no Brasil.

Talvez no Canadá.

Talvez em outro continente.

Talvez eu esteja sentado numa varanda quente, aposentado, cuidando de alguns animais que nunca serão abatidos, esperando vocês aparecerem com meus netos.

Talvez eu ainda esteja escrevendo meu livro.

Talvez nunca o publique.

Não importa.

Porque descobri uma coisa importante.

A obra principal da minha vida nunca foi um livro.

Nunca foi uma carreira.

Nem mesmo a imigração.

A obra principal da minha vida foi tentar construir uma família onde ninguém precisasse desenhar uma casa sem portas e sem janelas para se sentir seguro.

Se eu tiver conseguido isso...

Mesmo que só um pouquinho...

Então já terá valido a pena.


E termino com uma promessa.

Continuarei errando.

Continuarei aprendendo.

Continuarei fazendo trocadilhos horríveis, como a inteligência artificial que eu queria criar para responder às perguntas impossíveis do Benício.

Ela se chamaria PAP A.I.

Tenho quase certeza de que vocês vão continuar revirando os olhos quando eu fizer esse tipo de piada.

E espero, sinceramente, que continuem.

Porque isso significará que ainda estaremos rindo juntos.

E, no fim das contas...

Acho que era exatamente isso que aquele menino da casa sem portas procurava desde o começo.

Uma casa onde as pessoas pudessem entrar...

Sair...

Viajar...

Mudar...

Crescer...

Construir suas próprias vidas...

E, ainda assim, saber que sempre existirá um lugar para voltar.

Com todo o amor que um homem imperfeito consegue colocar em palavras,

Papai.

(Julho de 2026, depois de uma semana inesquecível em Bruce Peninsula, antes do recomeço de mais uma etapa da vida.)


Esse texto foi escrito pela AI depois de um longo dia de conversa... Eu pedi para escrever um resumo e ela fez isso aqui! 



domingo, 29 de março de 2026

À DERIVA




Vou soltar, de leve, as rédeas,

confiando ao meu cavalo o caminho.

É eterna a neblina que me envolve;
nessa névoa, minhas pernas se deslizam,
vão tranquilas pela relva, entre mistérios.

Sei que os deuses jogam cartas
e as ciganas as decifram! (São boas novas?)...
Por favor, não me revelem nem prevejam
o que os astros, em seus ciclos, profetizam...

Afrouxar, maneiro, a sela, e sem pressa,
cavalgar pela planície, pelas falésias...
Espiar pela escotilha, percebendo
qual o mar me naveguei, durante a noite,
e onde ancora, já bem tarde, nesta ilha, meu navio.

Se Ancara, na Turquia, ou Camberra, na Austrália,
ou Singapura, ao sul da Ásia…
Se escancara o deserto reservado ao meu destino!
Descobrir, de novo, a praia. Onde encerra o desafio?

Vou soltar, suave, minhas velas no escuro...
A maré vai desenhando, no oceano, um labirinto.
Eu saltito... e respostas não procuro.
Tenho alma e caráter:
é o que molda meu futuro!

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

A cirurgia do Pedro e a incrivel disciplina

Pedro, que você é super disciplinado, isso não é novidade. Nao é qualquer crianca que usa tapa olho por quase dois anos sem reclamar e com um rigor metodico que é exemplar ate mesmo para adultos. E você com todo o seu agito e energia, ainda assim consegue manter a rotina de usa-lo diariamente pelas horas que forem necessarias. Sabemos que é incomodo, nada estetico e que muitas pessoas ficam fazendo perguntas cansativas.


Mas o caso de sua cirurgia no dente, foi incrivel. Vou te contar aqui tudo que passou para que você se lembre!


A quase um ano atras, fomos percebendo que seu dente da frente estava nascendo completamente torto… achamos que logo endireitaria, no entanto, passados alguns meses e vimos que o crescimento total já havia terminado e o dente continuava tortissimo.


O levamos ao dentista que constatou que você tinha um dente extra (supranumerario) preso no seu ceu da boca que que seria necessaria uma cirugia de extracao num neurocirurgiao porque era uma regiao de muitos nervos.


Imagina nossa preocupacao. As palavras CIRURGIA, NEUROCIRURGIAO, NERVOS FACIAIS, EXTRACAO, ANESTESIA, SCANNER, pesam muito na cabeca dos pais…


Marcamos com um especialista para que você fosse super bem atendido… 1200 dolares (CARACA Hein!!!!) ainda bem que tive que pagar somente 200 e o seguro cobriu o resto.


Foram meses de espera e uma angustia disfarcada da mamae e do papai, para que você não se preocupasse antecipadamente. Na verdade parecia que você nem estava ligando e ate mostrava-se animado para o dia chegar, marcava e contava no calendario.


Filho… eu que tive a honra de te levar no dia. Voce sempre tranquilo, bem sossegado, nem parecia incomodado com nada, era uma coragem natural. Voce sabia tudo que iria acontecer, já tinhamos antecipado, que na noite anterior, não poderia comer e nem beber nada 12 horas antes da cirurgia, e te explicamos como seria a anestesia, a operacao, o processo de recuperacao, que só poderia ingerir liquidos durante quase uma semana (ou coisas bem suaves e molinhas), ainda assim, você completamente abstraido das futuras dificuldades.


Mamae preparou uma bolsa gigante para eu levar para o centro cirurgico, parecia que eu ia dar a luz a um novo filho. Ate cobertor tinha na bolsa do Basics food.


Entramos juntos no consultorio, mas você teve que entrar sozinho para a sala de cirurgia… eu fiquei na sala de espera, e pela sua serenidade eu acabei ficando bem tranquilo tambem… um ajudando o outro a levar tudo de uma maneira bem leve.


Eu tive que conversar com as enfermeiras e assinar um documento atestando que eu estava ciente de todos os riscos que isso envolveria, mas controlando minhas paranoias e baseado nas estatisticas matematicas, consegui acalmar-me sem problemas.


Voce foi caminhando pelo corredor com a seguranca tipica dos grandes homens, passos decididos e fazendo perguntas bem tecnicas sobre cada detalhe dos equipamentos. As enfermeiras me contaram que você fez anda mais perguntas quando deitou na cama e injetaram a agulha em seu pulso. Ate o momento que você apagou, elas disseram que você fazia perguntas e que não demonstrou nenhum medo mesmo com a agulha entrando nas suas veias pequeninas.

Esperei por quase uma hora ate que me chamassem avisando que a extracao havia sido um sucesso e que você já estava acordando. Eu entrei na sala da cirurgia e você estava la… molenga como nunca vi… com a boca meio aberta, os olhinhos fechando… meio querendo chorar quando me viu… foi um grande esforco e você ainda estava grogue! Que dozinha do meu pequeno!


Ai eu cheguei com um pacote com mais de 100 cartinhas Marvel que vocês estavam colecionando o álbum. Ai seu quase choro virou um animo que esqueceu o choro, mas você ainda tava muito molenguinha! Fiquei com você no colo alguns minutos, tentando recuperar teus raciocinios, fazendo perguntas simples, conversando com a enfermeira e com o medico, e ambos disseram que você foi um grande heroi mesmo, muito valente e que fez tudo ser bem mais facil para o doutor.


Ele ainda comentou que a extracao foi bem complicada porque era um dente grande alojado no inteiror do palato e perto de alguns nervos. Poxa… ainda bem que deu tudo certo!


Te carreguei no colo ate o carro, e você já tava mais animado, recuperando ainda… voltamos para casa e você ficou organizando as cartinhas Marvel no álbum, abrindo os pacotinhos e conversando com o papai. Ai ai ai meu filho! Com um algodao na boca para estancar o sangramento.


A enfermeira me deu um monte de aviso e orientacoes do que você poderia fazer ou não… repouso e sem esforco fisico por pelo menos 7 dias, comer coisas geladas e liquidas por 3 dias… Fizemos tudo direitinho e sua disciplina nessa fase de recuperacao foi extraordinaria, como sempre, você sempre obedecendo as orientacoes e sem reclamar muito, entendendo que isso é o melhor para você. Mas que crianca tao facil de cuidar, um comportamento de adulto consciente!


Filho, parece simples para você, mas você foi extraodinario mesmo! Eu fico vendo outras criancas e ate mesmo adultos que não conseguem ter 1% de sua disciplina nos cuidados consigo mesmo! Voce é incrivel, fico de boca aberta pensando em sua rigidez no cuidado com seu corpo e sua recuperacao!


Que alegria ter esse exemplo dentro de nossa casa.







sábado, 9 de novembro de 2024

Hoje eu vi o meu filho apanhar muito e fiquei feliz de ver

Meu querido filho Benício,

Ahh filhinho! (suspiro)… Você não ganhou nenhuma hoje…

Hoje, vi você passar por uma experiência que me tocou profundamente. Quero que leia essas palavras com calma, quando os desafios da vida ou os momentos de frustração do futuro o fizerem sentir-se derrotado. Pode ser uma carta longa, mas prometo que a cada linha, você vai sentir o amor e a admiração de seu pai.

Ah, meu menino, o que vi hoje foi algo que, de certa forma, me fez muito feliz. Você entrou nessa nova academia de Jiu-Jitsu depois de mais de um ano parado. Quando fez as aulas em St. Catharines, ainda era uma criança se divertindo numa brincadeira. Por isso, talvez tenha sido até um choque perceber como as coisas funcionam agora em Welland. Crianças focadas, treinadas por um campeão mundial, com uma mentalidade coletiva de competição. Meu menino de 10 anos, grandão para a sua idade (mas com a faixa cinza e branca)… Então o mestre o colocou numa turma de crianças mais velhas, ali no meio dos grandes. Um festival de dificuldades… uma seguida da outra… E a cada queda, meu menino me olhava com um olhar de frustração e um pequeno riso de vergonha… Colocava seus joelhos no chão para se apoiar e, com o corpo exausto, tentava se levantar, molhado de suor!

Me parecia que queria chorar e desistir… eu o entenderia se você fizesse isso naquele momento! Mas você queria mostrar ao papai, pelo menos, uma única vitória. Me apertava o coração, mas eu sabia que aquelas eram as suas batalhas e tudo o que eu poderia fazer era torcer e enviar o meu olhar apaixonado e carinhoso para que você sentisse o calor do meu afeto.

A cada nova queda, Benício, você mostrava mais esforço, mas também mais resiliência. Eu via seus olhos brilhando de frustração, quase lacrimejando, com um leve sorriso de vergonha e decepção. Teus braços foram torcidos (duas vezes), te estrangularam, te derrubaram com força, golpes que você jamais imaginou. A cada desafio, você se levantava, molhado de suor, cansado, os joelhos no chão, buscando forças para tentar novamente. Vi, em seu olhar, a tentação de desistir, mas também vi a determinação de seguir em frente, não se deixar abater, e mostrar, ao menos, uma vitória para o papai.

Sei o quanto você queria essa vitória, mas à medida que a aula avançava, você foi ficando mais e mais cansado. Os adversários menores e mais leves começaram a sentir-se mais confiantes para te desafiar nas batalhas e, ainda assim, os reveses continuaram. Eu estava ali, observando, e naquele momento, pensei em mim mesmo. Quando cheguei no Canadá, eu também passei por dias difíceis. Você se lembra, cada noite empurrando o carrinho no Walmart, chegando em casa totalmente destruído, com vontade de chorar e voltar para o colo de minha mãe. Cada novo dia parecia uma dificuldade. Eu me sentia cansado, desmotivado, mas, como todos, sim, temos escolhas. A qualquer momento, podemos decidir desistir, mas algo dentro de nós nos estimula a tentar ao menos mais uma vez, talvez com uma nova estratégia, com um novo adversário, um novo aprendizado… um segredo, um truque, uma nova sabedoria ancestral revelada num sonho. Era preciso continuar. Cada revés me empurrava para a próxima tentativa, para o próximo passo, mesmo que pequeno.

Assim como você, eu sabia que era necessário cair e tentar de novo. E, assim como você, meu filho, nossa tendência é seguir em frente. E foi assim que me tornei o homem que sou, nada especial, é certo, mas sei que, para a minha trajetória de vida e para minha família, de alguma forma, sou um herói, cheio de bons parceiros, é claro. Sei que, naquele momento, você se sentiu derrotado, mas eu vi algo muito mais importante: vi você levantando-se a cada queda. Vi você se esforçando mais do que nunca, buscando, sem desistir. Isso, para mim, foi a verdadeira vitória.

Não tive dó nem piedade de suas jornadas e suas escolhas… ao contrário, fiquei muito feliz com isso! Te ver ali no tatame… sendo meio que massacrado com gentileza e esportividade, me fez te ver como um homem que luta, cai e se levanta. Se você sentiu a chateação de não conseguir me presentear com uma vitória, talvez tenha achado que fiquei decepcionado. Mas NÃO, meu filho! Seu pai está muito orgulhoso do que viu hoje. Muito mais do que se você tivesse vencido todas as batalhas. Pois eu te vi levantar de todas as dificuldades e tentar, tentar e tentar de novo!

Acho que você ainda não entende completamente, mas, naquele tatame, eu vi a essência do que significa ser forte. Não é sobre ganhar todas as batalhas. Não é sobre chegar em primeiro. É sobre levantar a cabeça, mesmo quando tudo parece perdido, e tentar novamente. Isso me encheu de orgulho, muito mais do que se você tivesse vencido todas as lutas. Eu vi um homem em formação, alguém que entende que a vida é feita de ciclos, de altos e baixos, mas que sempre será mais forte depois de cada queda.

Você é um menino com uma alma intelectual, Benício. Sabe disso. Não é o mais atlético ou o mais rápido, mas sua força está na sua mente, no seu jeito de lidar com as pessoas, na sua gentileza e, principalmente, no seu esforço para melhorar. Vi isso em todos os aspectos da sua vida: no futebol, na patinação, nas corridas. E em cada uma dessas atividades, você tem uma coisa que muitos não têm: a coragem de tentar. Em meu coração, não importa te ver chegar em último, o pior colocado é o que não se propôs a competir. O pior é nunca tentar.

Por isso, quando você sentir que está sendo derrotado, ou quando a vida parecer dura demais, quero que se lembre desta carta. Lembre-se daquela aula de Jiu-Jitsu, onde você lutou como um verdadeiro guerreiro. Lembre-se de como, apesar de não ter ganho nenhuma luta, você não desistiu, levantou-se e tentou novamente. Isso, meu filho, é o que realmente importa. Eu nunca vou me importar em te ver sempre vitorioso, mas sempre vou estar orgulhoso de ver você levantar a cabeça e tentar de novo, independente do que aconteça.

Me encheu o coração de segurança imaginar que esse é o processo que a vida vai usar para te lapidar como o herói de sua própria vida e de sua própria família.

E isso vai nos aproximando um do outro e do ideal de ser humano que necessitamos nos dias de hoje.

Teu pai te ama involuntariamente… como qualquer pai! E mais do que isso, teu pai te admira por tudo que você tem se transformado.

Enfim… a aula terminou. Você com olhar de decepção, molhado como se tivesse saído do chuveiro! Ensopado no suor de seu esforço.

Ao sairmos, no caminho para o carro, eu disse: - Caraca, Beni… Que dia difícil, hein? Não ganhou uma! E você, ainda ofegante, respirou e respondeu com um certo orgulho, sem se deixar abater: - Não, papai, eu empatei duas! Eu sorri disfarçadamente, pensando que eu que não percebi bem cada detalhe das lutas e talvez eu nem entenda tanto de Jiu Jitsu.

Eu sei que, muitas vezes, o caminho pode parecer difícil, mas é essa trajetória que vai te moldar. Não importa onde você chegue, mas sim quem você se torna enquanto está tentando chegar lá. E, no fim, isso vai te aproximar cada vez mais da pessoa incrível que você está se tornando.

Teu pai te ama profundamente, mais do que palavras podem dizer. Mas, além disso, te admiro muito, Benício. Vejo em você uma força que poucos têm, e cada dia vejo você se transformando num homem melhor, mais forte, mais gentil. Isso é tudo o que um pai pode desejar para o seu filho e o que o mundo pode desejar em um homem.

Com todo o meu carinho,


Teu pai.

(Novembro de 2024)


Today I Saw My Son Take a Beating and I Was Glad to See It

My dear son Benício,

Ahh, my boy! (sigh)… You didn’t win a single one today…

Today, I saw you go through an experience that really touched me. I want you to read these words slowly, when life’s challenges or future moments of frustration make you feel defeated. It may be a long letter, but I promise that with every line, you’ll feel your dad’s love and admiration.

Oh, my boy, what I saw today made me happy in a way. You stepped into that new Jiu-Jitsu academy after being out of it for over a year. When you took classes back in St. Catharines, you were still a kid just having fun. So, it might’ve been a bit of a shock realizing how things work now in Welland. Focused kids, trained by a world champion, with a competitive mindset. My 10-year-old boy, big for his age (but still with that gray and white belt)... and then the coach put you in a class with older kids, right in the middle of the big guys. A festival of difficulties… one after the other… And with each fall, my boy would look at me with frustration in his eyes and a little embarrassed smile... He’d drop to his knees for support, exhausted, drenched in sweat, trying to get back up.

It seemed like you wanted to cry and give up… I would’ve understood if you did! But you wanted to show me, at least, one victory. It broke my heart, but I knew those were your battles, and all I could do was cheer you on with my eyes full of love, sending warmth through my gaze so you could feel my support.

With each new fall, Benício, you showed more effort, but also more resilience. I saw your eyes shining with frustration, almost tearing up, with a little smile of embarrassment and disappointment. They twisted your arm (twice), strangled you, threw you down hard, and hit you with moves you’d never imagined. With every challenge, you’d get back up, soaked in sweat, tired, your knees on the floor, trying to find the strength to go again. I saw in your eyes the temptation to quit, but I also saw the determination to push forward, not to give up, and at least show me one victory.

I know how badly you wanted that win, but as the class went on, you got more and more tired. The smaller, lighter opponents started feeling more confident taking you on, and still, the setbacks kept coming. I was watching, and at that moment, I thought back to myself. When I first came to Canada, I also had tough days. Do you remember? Pushing the cart at Walmart every night, coming home completely wiped out, wanting to cry and run back to my mom’s arms. Every new day felt like a struggle. I was tired, demotivated, but like everyone, we have choices. At any moment, we can decide to give up, but something inside pushes us to try at least one more time, maybe with a new strategy, a new opponent, a new lesson learned... a secret, a trick, an ancient wisdom revealed in a dream. You have to keep going. Each setback pushed me to try again, to take the next step, even if it was small.

Just like you, I knew that falling and getting back up was the key. And, just like you, my son, our tendency is to keep going. And that’s how I became the man I am. Nothing special, sure, but I know that for my life’s journey and for my family, in some way, I’m a hero, surrounded by great partners, of course. I know that at that moment, you felt defeated, but I saw something much more important: I saw you getting up after every fall. I saw you giving more than ever, searching, without giving up. That, to me, was the true victory.

I didn’t feel sorry for your struggles or your choices... on the contrary, I was so happy to see them! Watching you on the mat... kind of getting gently crushed with sportsmanship, made me see you as a man who fights, falls, and gets back up. If you felt disappointed for not being able to gift me with a win, you might have thought I was upset. But NO, my son! Your dad is SO proud of what I saw today. Way more proud than if you’d won every match. Because I saw you get back up from every challenge, and try, try, and try again!

I think you still don’t fully understand, but on that mat, I saw the essence of what it means to be strong. It’s not about winning every battle. It’s not about being first. It’s about holding your head high when everything feels lost, and trying again. That filled me with pride, way more than if you’d won every fight. I saw a man in the making, someone who understands that life is made of cycles, highs and lows, but that you’ll always come out stronger after each fall.

You’re a boy with a thoughtful soul, Benício. You know that. You’re not the most athletic or the fastest, but your strength is in your mind, in the way you handle people, your kindness, and especially in your effort to improve. I’ve seen that in all aspects of your life: in soccer, skating, running. And in every one of those things, you have something most don’t: the courage to try. In my heart, it doesn’t matter if you finish last. The worst place is the one who never dared to compete. The worst thing is never trying.

So, when you feel like you’re being beaten, or when life feels too tough, I want you to remember this letter. Remember that Jiu-Jitsu class, where you fought like a true warrior. Remember how, even though you didn’t win a single fight, you didn’t give up, you got up, and tried again. That, my son, is what really matters. I’ll never care if you’re always victorious, but I’ll always be proud to see you lift your head and try again, no matter what happens.

It filled my heart with reassurance to think that this is the process life will use to shape you into the hero of your own life, and of your own family.

And this will only bring us closer, and help us get closer to the ideal of what it means to be human in today’s world.

Your dad loves you involuntarily... like any dad! And more than that, your dad admires you for everything you’ve become.

Well... the class ended. You had that disappointed look on your face, soaking wet as if you’d just come out of the shower! Drenched in sweat from your hard work.

On the way to the car, I said: – Wow, Beni... What a tough day, huh? Didn’t win a single one! And you, still panting, breathed and proudly answered, not letting it get to you: – No, Dad, I tied two! I smiled to myself, thinking maybe I didn’t catch every detail of the fights, and maybe I don’t even know that much about Jiu-Jitsu.

I know that, many times, the path may seem hard, but it’s this journey that will shape you. It doesn’t matter where you end up, but who you become while trying to get there. And, in the end, that will bring you closer and closer to the incredible person you are becoming.

Your dad loves you deeply, more than words can say. But, more than that, I admire you so much, Benício. I see in you a strength few people have, and every day I see you becoming a better, stronger, kinder man. That’s all any father could wish for his son, and all the world could wish for a man.

With all my love,
Your dad. 

(November 2024)

sábado, 18 de maio de 2024

Primeira redacao em frances do Pedro! Les champignons empoisannès

 


Special Evento!


Um causo de imigração!
Voces sabem que quando a gente vem morar no Canada, começamos a meter umas palavras em inglês no meio das nossas prosas...
Vou contar um causo desses:
Cheguei cansado e imundo de meu trabalho, depois de 12 horas de turno... entrei no banho e vi que não tinha sabonete, gritei para minha esposa querida que veio me acudir:

- Aqui Honey... não tem sabonete mesmo... mas tem esse aqui Body washer para o corpo inteiro, e trouxe diligentemente o vidrinho de sabonete líquido!
(Perceberam que ela foi mesclando essas palavras gringas né?)

Eu respondi carinhosamente: - Querida, eu não gosto de sabonete líquido... ficar passando a mão no corpo, parece que não ta lavando nada... prefiro aquela barra, para esfregar forte e raspar a sujeira!
Ai ela chega com uma barra de sabão de coco Ypê, de lavar roupa, que trouxe la do Brazil... e disse assim: - Olha querido, então tem esse, que é bem bom para o Special Evento!

- Êpa! Como assim, Special Evento?? Já fiquei todo animado!
E ela respondeu: - Sim querido, bom demais para o Special Evento! E saiu...
Poxa, ai que eu tomei um banho bem tomado mesmo. Gastei a barra de sabão de coco num banho caprichado, pensando no tal Special Evento!
Terminado o banho... já deitados e bem cansados! Comentei para minha esposa: - Querida... agora já estou bem limpo e preparado para o Special Evento...
Minha esposa: - Que??? Que Special evento???

Eu: - Ué... você falou para eu usar o sabão de coco para o Special Evento!!!!

Ela dando risada: Kkkkkkkkkk, como assim Special Evento?? Eu disse que a barra de sabão de coco era bom demais para OS PÉ CHULEZENTO!!!!
Eita vida de imigrante danada!

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Insonia Infantil

 Ah meu filho Benicinho!
Como fazer para separar meu coração do teu! 
Voce sabe daquela movimento magico que eu faço para arrancar meu coração do peito e sopra-lo para voce!
Esses ultimos meses, em especial essa ultima semana, estamos acompanhando de perto uma gripe e infecçao que voce ta tendo...

Ja percebemos a algum tempo, que suas gripes, remedios, te levam a um quadro noturno de escutar vozes em sua cabeça... definitivamente nao sabemos a causa, o motivo e o diagnostico... 

Pode estar associado aos medicamentos, à febre alta com delirios... ou ate mesmo a infeccao na garganta que acaba ressoando no ouvido interno e gerando ruidos que voce interpreta como vozes... 

Pode ser alguma coisa relacionada à ansiedade, pânico, bipolaridade e mais alguns pensamentos paranoicos que pai e mãe ficam especulando.

Hoje a noite, voce ficou com insonia, deitava e nao conseguia dormir tambem... Ou seja, essa insonia as vezes te persegue, diria que uma vez a cada dois meses, voce tem essas dificuldades para dormir...
Muitas coisas podem estar associadas à nossa recente mudança para Welland e para sua nova escola Nouvel Horizont (nos mudamos a menos de um mês).

Veja... na casa nova ja demos um passo gigante em sua mudança de postura... voces estao chegando sozinho da escola, abrindo a casa com sua própria chave... Ganhou um celular para comunicar-se em caso de emergencia... Assinamos um papel te autorizando a responsabilizar-se pelo Pedro ao descer do onibus escolar, Instalamos uma camera de seguranca no hall de entrada e podemos confiar totalmente em voces... Isso é muita responsabilidade para uma criança de 9 anos de idade.

Voce já fala 3 idiomas perfeitamente... le, assiste, dialoga... e já se anima no Ucraniano e espanhol... É muita coisa meu filho!

Agora, estamos mais distantes da rotina de encontrar as meninas (Julia e Luiza), teu amigão Ragnar...
E ainda tem as questoes hormonais da pre adolescencia... as paixoes, a sexualidade, a socialização na nova escola, novos professores, novos desafios... e voce ta encarando tudo isso com a maior naturalidade... eventualmente alguns problemas vão aparecer...

As vezes são as vozes, as vezes parece uma crise de ansiedade, as vezes insonia, e pensamentos de morte, medo de escuro... solidão...

Sei que posso confiar em sua leitura futura consicente e posso dizer que não considero isso um grande problema, mas tem me levado a refletir sobre algumas caracteristicas suas que estou percebendo!

Meu filinho, creio que voce seja uma criança muito especial, claro que é... e tem uma sensibildiade incrivel para perceber os sentimentos e a arte do mundo! As coisas da realidade te machucam e te atingem de maneira dura... 

Sempre que te mostro alguma coisa sobre a historia das guerras, da colonização... voce fica arrasado, quase nao consegue parar de pensar nisso... te afeta e dói... A alguns meses, fui ler um livro sobre a colonização espanhola no Mexico e voce acordou a noite porque estava com pena dos Astecas. 

E a alguns anos, foi o mesmo com a situação da Palestina... quando te mostrei o videoclip da Marisa Monte (Vilarejo), canção que sabiamos cantar de cór e juntos. 

Serenidade meu filinho... teu cerebro e teus pensamentos irão acompanhar por toda a vida, e teras que desenvolver a arte de controlá-los e canaliza-los para obras construtivas e criativas... Como o desafio da Esfinge... Decifra-me ou devoro-te! Mas nao fique ansioso com isso... Tua inteligencia, naturalmente irá decifrar todos os desafios mentais que por ventura apareçam.

Essa noite, mamae foi deitar contigo e ficou uma hora tentando te fazer dormir... Não conseguiu... depois eu fiquei abraçado contigo por mais uma hora... voce não dormia... E entao levantamos e tentei te fazer escrever qualquer coisa que viesse à sua mente... e te dei um chá de camomila... depois mamae te levou para a cama de casal do quarto extra... e voce dormiu abracadinho com ela a noite toda... Mas demorou e deu um trabalho! 

Creio meu filinho que teu lado artistico e intelectual vai sobressaindo... vai mostrando uma caracteristica a ser desenvolvida e lapidada com muito carinho... Muitas coisas acontecendo em nossa vida, nossa rotina... nossos aprendizados... 

Vamos analisando de perto a situação, observando, dando carinho, atenção... 

Confio mesmo, muito que voce irá superar tudo isso e encontraremos juntos um caminho lindo para seu desenvolvimento pleno! 

Teu pai e tua mãe estarao sempre ao teu lado! Amalgamados! 




segunda-feira, 10 de abril de 2023

Aula dos Sete Sacramentos

Benício todo empolgado me dando uma aula sobre os sete sacramentos da Igreja Católica...  Batismo, Confirmação, Penitência, Eucaristia, Ordem, Matrimônio e Unção dos enfermos.

Jantando na mesa, me dizendo que ele já tem dois sacramentos e que em breve terá mais um... Eu nem sabia que isso existia.

Pedro ao lado escutando tudo atento! Atentíssimo! 

E Benício falou que o quinto sacramento se divide em dois, pode escolher casar ou virar padre.

Eu perguntei: - O que você vai escolher!?

Benício: Vou escolher casar, é claro!

Eu: - Ah é, legal, mas sabe que a Igreja não permite casar homem com homem, vc teria que casar com mulher!

Benício: Ah é!? Claro, vou casar com mulher! Mas papai, então gay não pode casar na Igreja? Entao um gay nunca vai receber o quinto sacramento?

E antes de eu responder, Pedro imediatamente deu um grito de pura lógica!

 - Claro que não né? Os gays escolhem ser os Padres!!!

A lógica das crianças é muito óbvia! A gente deu risada e Pedro não entendeu porquê?

 

Obs: Terminaram me contando que um cumpadre lá dos matos, das roças, um velhinho místico amigo dos avós maternos... já recebeu a unção dos enfermos e continua vivo! Esses meninos estão muito sabidos! 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Boletim do Pedro

 Pedro frequenta a escola 100% francesa a menos de 15 meses... sempre recebemos o boletim com alegria, porque eles escrevem maravilhas do nosso piazinho!

Os professores o chamaram de modelo francofono para os colegas de classe, pense!!!

Vou postar a tradução de uma frase que caracteriza bem a personalidade dele.

Tradução: Pedro é um menino engenhoso. Ele tem sucesso para encontrar soluções para os problemas de todo tipo. Aconteceu uma vez, onde dois amigos (um menino e uma menina) brigavam para brincar com a mesma boneca. Apesar que os amigos sabiam que haviam diversas outras bonecas na classe. Eles queriam absolutamente o mesmo bebê em questão. Ao os observar, Pedro sugere que o menino poderia brincar sendo o papai e a menina como a mamãe do bebê. Pronto, a briga terminou. Excelente Pedro!!!
Que menino genial!



domingo, 4 de dezembro de 2022

Avaliação do ano de 2022 e perspectivas para 2023

 Avaliação do ano de 2022 e perspectivas para 2023

Bom... fechamos o ano inteiro aqui no Canada, e iniciando nosso segundo inverno!

De maneira geral, tivemos a concretização de alguns projetos e alguns desafios foram superados.

Sobre Benicio:

- Super bem adaptado na escola, ganhando certificados de fluência em Frances, aprendendo o inglês quase por osmose e super dedicado no Duolingo, e entrou na aula de Ucraniano na Igreja. Resumindo, línguas, em geral é um ponto super forte,

- Na escola, parece que arrumou um grupo fiel de amigos e a meses, anda super empolgado com uma Base militar que a gangue construiu e disputa com outro grupo, as vezes ele é o chefe e seu melhor amigo é o Ragnar.

- A escola é a principal atividade na vida das crianças, Benicio anda tendo umas paqueras, mas parece muito tímido para se aproximar romanticamente de uma menina, no entanto, quando a aproximação não envolve romance, ele é um grande amigo, falador e contador de causos.

- Benicio esta animado com o Jiu Jitsu, já tem 6 meses de aula e evoluiu 3 listras pretas. Se dedica e faz com atenção.

- tiveram alguns momentos em que tive que conversar mais serio com ele a respeito do excesso de brincadeiras e piadas em momentos inoportunos, e que ele deveria ter mais respeito com os professores em geral. Isso parece que vem do fato dele querer ser o centro das atenções através das piadas e gracinhas.

- de maneira geral as outras crianças acham isso muito engraçado e se envolvem nas palhaçadas.

- Benicio diz que não quer voltar para o Brasil, mas sente saudade da Baba e dos momentos no mato.

- Outro fator que tive que conversar e controlar são as telas, jogo e TV, usar mais a criatividade e deixar que o tédio e o ócio alimentem ideias de atividades sem telas.

- Benicio come super bem, esta até ficando fofinho... Comida era um problema, agora nem pensamos mais nisso. Sushi, pizza, hambúrguer, Alga seca, rolinho primavera, são suas comidas preferidas.

Conversamos muito sobre controlar a ansiedade quando algo é prometido, como dizer que vamos comprar figurinhas, ele começa a perguntar repetidas mil vezes quando iremos comprar, se é agora, se é hoje, se é amanha... isso vai irritando até o ponto de não querermos mais comprar nada.

- Uma coisa muito legal do Beni, foi a corrida de 1 km pelo Terry Fox... ele havia desistido de correr porque nos treinos na escola não tava indo bem... Conversamos bastante sobre os desafios pessoais, que a maior vitória seria contra ele mesmo, fomos treinar todos os dias, cronometrando, incentivando e finalmente ele foi correr com a equipe na escola Franco Niagara, não ganharam, mas ele foi ate o fim e não desistiu, ficamos muito felizes mesmo!

Pedro:

Pedro é um amigão... adora trabalhar na casa e dizer que esta nos ajudando... E ele ajuda com alegria, sabe onde esta tudo na casa. Se perguntamos se alguém viu o cortador de unha, ele corre no armário e traz para a gente... Lavar banheiro, fazer laundry...

- Pedro recebe os mesmos elogios na escola, do motorista de ônibus, todos o adoram.

- se comporta e ajuda... teve um caso, que ele nos contou, todo orgulhoso, que na troca de professores, os alunos ficaram por uns minutos, sem professor em sala, e todos os alunos foram correndo pelo corredor para a aula de educação física no ginásio. No entanto, ele e uma amiguinha, foram os únicos que permaneceram em sala, esperando a condução do professor. Ao final, todos ficaram de castigo, sem poder fazer aula de Ed Fisica, e so ele e a amiguinha ficaram brincando no ginásio com o professor...

- Pedro adora brincar com as crianças mais velhas, pela influencia que teve do Beni e das meninas (Luisa e Julia), parece muito maduro com as outras crianças da idade dele, mas esse segundo semestre, ele começou a dizer que esta fazendo bons amigos na sala dele também, e que ajuda a cuidar dos pequenininhos.

- Pedro joga Minecraft e outros eletrônicos, mas não é tão agarrado nisso, quando digo que vao ficar uma semana sem jogos, não faz tanto drama.

- Pedro esta evoluindo muito na escrita e nos números, começa a ser natural o interesse em ler e escrever, fez a lista do papai Noel sozinho, depois eu tiro uma foto. O francês esta completamente fluente. Percebo isso agora nesses últimos 15 dias em que estive dormindo ao lado dele (por causa de gripe) que ele fala dormindo, e o idioma que ele usa é o francês... Frase inteiras e com sentido.

- O inglês do Pedro também esta evoluindo por osmose... ele entende quase tudo nas conversas e arrisca conversar sem medo. Mas essa confusão de sons que cada letra faz em cada idioma, esta dificultando o processo de escrita...

- Pedro também vai ao Jiu Jitsu, luta muito bem, faz tudo certinho, mas parece que não se empolgou tanto quanto o Benicio, o espirito de disputa dele não é desenvolvido, ele prefere brincar do que lutar.

- Pedro adora fazer desenhos e atividades, adora mostrar tudo que faz, pregar nas paredes.

- Aprederam a nadar... Pedro parece um peixinho, dominou a piscina, atravessa sem boia e já não nos preocupamos mais que morram afogados... Isso foi um alivio e um orgulho.

- Pedro nao se importa muito sobre voltar para o Brasil ou nao, ficar ou ir, para ele o importante é estar no meio da família. Um dia veio com uma toalha de banho falando que tava com cheiro da Baba, ele sente saudade, mas nao expressa isso negativamente... da risada de tudo! Fala muito do Ian, seu primo no Brasil.

- Pedro é muito sensivel com alguns assuntos que nao imaginamos, de repente, no meio de uma brincadeira, ele se ofende com alguma coisa e começa a chorar muito, e se falamos - Coitadinho! Ele chora mais ainda e assume um papel de vitima agredida... As vezes um machucadinho no dedo, faz do banho uma tormenta... mas se falamos que ele é forte e nem liga, ai ele assume a postura de guerreiro e tranca o choro... 


Lego, Minecraft, Joguinhos, Jiu Jitsu, piscina, escola, Nerf ... São as atividades favoritas dos dois.

Agora acordaram e vou parar de escrever para cuidar da vida um pouco!

(A intençao do texto era avaliar o ano de 2022 e pensar o 23, mas me perdi nas evoluções nos meninos... enfim...)

O (longo e duradouro) ritual do soninho!

 O ritual do soninho! A gente cuida!

Durmam meus filhos! Eu sua caminha de fundo do mar e da falcon, com os golfinhos te observando, que as meninas pintaram.

A tartaruguinha que pisca sua luz verde... a musiquinha de passarinho e piano zen.

A Lilou do Pedro, o travesseiro geladinho do Beni.

Suas coberta de pelos, com as baleias ou os Jedis, as almofadas fofinhas, as gradinhas de madeira para vocês não rolarem!

Quanta proteção que mamãe dá!

A gente protege!

Respirem tranquilos, deixa papai fazer um carinho na barriguinha, com a mão rugueuse.

Os 10 minutinhos da mamãe deitada ao lado, cansada...

As vezes uma historinha, cada vez mais raras.

Espichem esses corpinhos! A água aqui ao lado, para a sede noturna.

A reza em ucraíno, o agradecimento por algo do dia...

Papai observa o sono... constrói uma casa, levanta um mundo!

Beijo, boa noite, te amo, I love you, chuchu, abobrinha, shazam!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

 Avaliação do ano 2021 e planejamento 2022

 

Foi mais um ano de sobrevivência, ano da vacina na família e ano da mudança para o Canada. Colhendo o fruto de 3 anos de semeadura, persistência e organização.

 

Até setembro, tudo foi uma grande loucura... crianças em casa o tempo todo, isolamento, e correria no para organizar nossa viagem, ansiedade por vistos, venda e aluguel da casa...

 

Conseguimos... passagens, vistos, vendas... so de lembrar já da canseira e arrepios... que dificuldade!

 

Depois de setembro, continuou a loucura, não tivemos tempo para comemorar nada...

Tudo novo, escola das crianças, francês, trabalho, universidade da Adriana, casa nova, nova organização familiar, 4 adultos, 4 criancas, nova reorganização hierárquica, adaptação no trabalho, visitas da Andreia, da mamãe, dos pais do Dave...

 

Para mim, particularmente as mudanças foram para piores, mais trabalho, menos grana, menos tempo com a família, menos lazer... Muito menos grana... mais dificuldades com inglês, mais velho para se adaptar as mudanças e para fechar o ano... COVID 19... Mas uma sensação de aventura, de vitória, de dever cumprido, de felicidade interior de ter conseguido sair de uma baita zona de conforto e envelhecimento.

 

Não fico me lamentando (na verdade fico sim)... mas não quero fazer disso um drama que me impeça de TENTAR muito profundamente... esse ano sera de mais avaliação da experiência... todo o momento fico comparando com a vida e a perspectiva de futuro que eu teria no Brasil.

 

Aqui, estou me saindo melhor do que eu imaginava... as perspectivas no trabalho são de melhoria... e acho que para nos aprofundarmos na experiência CANADA, temos que bater em algumas teclas, insistir em alguns fatores.

 

Mas o trabalho no Walmart não tem sido fácil, no começo bem difícil, mudar a mentalidade, descer de níveis, humildade obrigatória, baixar a cabeça, preparar o corpo para os 20 km diários.

 

1 – A experiência CANADA seguirá ate 2022, isso é certo, e até lá temos que fazer o máximo para torna-la mais apaixonante e concreta possível, o que significa;

 

2 – Definir um método de aplicação da Residência Permanente que seja o mais eficiente possível, tentar fazer que seja barato, simples e garantido.

 

3 – Precisamos, enquanto casal, tentar somar 5 mil mensais no mínimo, para poder pensar em ter nosso próprio espaço, perto da Ju, da escola das crianças, mas que a gente possa se organizar como família.

 

4 – Ter dinheiro no Canada, principalmente no inverno, significa melhor qualidade de vida, para lazer, cursos, esportes, viagens... Pensar nisso junto com as crianças.

 

4a. De todos os processos PR que analisei, todos exigem comprovação de renda de no mínimo 25 mil CAD, ou seja... temos que manter o dinheiro na conta do Brasil, significa não pagar Andreia e Alice e ainda tentar juntar muito dinheiro aqui em nossas contas até o final do ano, o que significa que também não iremos pagar o Dave, talvez ainda precisaremos de mais grana dele ou de alguém. Alertar Denise, Carlos e Tico, que provavelmente precisaremos da grana de volta, nem que depois a gente re empreste para eles (depois que o PR for aprovado). – Conversar com quem estamos devendo e com quem está nos devendo, caso a caso.

 

5 – Tudo indica que a COVID vai diminuindo de importância no dia a dia, mas parece que no começo do ano, ainda viveremos tempos de restrições. Vacinar Benício e Pedro nos deixara muito mais tranquilos.

 

6 – As questões básicas, como trabalho, escola, carteira de motorista, contador, declaração de impostos, pagar as contas, tem que ser resolvidas da maneira mais simples e objetiva possível, sem ficar enrolando ou big dramas.

 

7 – Viagens e amizades devem ser valorizadas como bases para uma qualificação da tentativa... Tentar comemorar cada pequeno passo, porque ainda não tivemos um momento para descansar e curtir nossa vitória de estar aqui.

 

8 – Fazer o IELTS, CBL, Estudar Frances, e documentos como perfil no Express Entry, CRS, ECA... Tentar fazer tudo isso e mais o que for necessário, perder o medo da papelada e meter as caras.

 

9 – Amadurecer o processo de decisão entre Brasil x Canada, com serenidade, frieza, cálculos e projetando o futuro a longo prazo.

 

10 – Apesar de tudo, de tudo... tentar sempre estar mais próximo das crianças... eles estão se saindo super bem, mas sabemos que nosso tempo aqui é bem mais curto e que a rede de suporte, basicamente restringe-se a Ju e as meninas. O Canada ganha do Brasil (Irati) em muitos quesitos, como segurança, oportunidades, acesso à cultura e tecnologia, tolerância ao diferente... mas temos que ficar de olho em outros quesitos, como distanciamento da terra, da natureza e dos Vilczaks, aceleramento da infância, depressão infantil, muita tecnologia e muita tela, distanciamento dos pais... muito enfiados dentro de casa e relações sociais muito restritas, entre outros que iremos percebendo.