Eu Aprendi com as Bruxas…
uma única lição… De verdade. Elas me ensinaram a regra número UM — e, por eu ser homem, a única que poderia ser repassada a mim.
Eu era o único filho homem, e minha mãe se preocupava em me passar, ao menos, uma pequena parte de seu conhecimento. O resto permaneceria um mistério reservado ao pequeno círculo feminino daquela curiosa família.
Sim, minha mãe foi aprendiz de feiticeira.
Ela vinha de uma geração hippie e se encantava com cada novo livro misterioso que entrava nos circuitos da turma alternativa. E eu, admirador das ideias daquela mulher, embarcava em cada nova aventura como se estivéssemos diante das descobertas mais sensacionais da humanidade.
Ioga, espiritismo, cartomantes, orixás, Guadalupe, tarot, sereias, alquimia, rezas…
Assim, entre uma coisa e outra, entrou a bruxaria em nossas vidas.
Minha mãe leu uns livros, pegou um cajado retorcido na floresta, esculpiu um mago — ou uma cobra, já não lembro — na ponta, fazia seus encantamentos, colhia a água do orvalho com lençol virgem, dizia conhecer alguma coisa dos desejos e dos sentimentos, e acho até que elaborou um chapéu esquisito…
Minha imaginação de menino fazia o resto.
Mas essa história atravessou muitos anos.
Comecei a acompanhar minha mãe nessas aventuras ainda pequeno. Quando chegamos propriamente à fase das bruxas, eu já tinha uns dezenove anos — idade suficiente para desconfiar de quase tudo, mas não o bastante para querer deixar de acreditar.
Já chego à primeira e única regra que me foi repassada. Um minutinho. O contexto importa e tem alguma graça. Vá acendendo seu cigarrinho ou prepare um chá para entrar no clima.
Eu queria acreditar nos encantos de minha mãe. Talvez porque aquela fosse uma maneira de continuar conectado ao universo particular que ela criava e para o qual sempre nos convidava. Ao mesmo tempo, alguma coisa já não encaixava muito bem no mundo concreto do dia a dia.
Como uma criança prolongando a crença em Papai Noel: você já desconfia que as contas não fecham, mas também não investiga demais. Afinal, quer continuar recebendo os presentes.
E eu colaborava com a fantasia. Não era exatamente um observador racional daquela maluquice toda. Cheguei, inclusive, a comprar um livro de magia para uma das minhas irmãs, de aniversário.
Para elas, porém, a coisa foi ficando mais séria. Entraram de cabeça na roda.
Alice, minha irmã mais nova, estava passando por uma situação de inveja e ciúmes em seu grupo de colegas na escola. Havia paqueras envolvidas — o que, naquela idade, tornava evidentemente tudo muito mais grave — e ela desconfiava que uma das meninas do grupo jogava areia em seus planos. O problema era descobrir qual.
E, por uma dessas coincidências que só ajudam as bruxas, justamente naquele período minha mãe e minhas irmãs estudavam um capítulo sobre magias destinadas a revelar pessoas falsas. Algo como arrancar a pele de cordeiro do lobo infiltrado no rebanho.
Eu não pude participar, não vi nada, mas sei que elas organizaram os ingredientes, separaram as ervas, prepararam o ritual, acenderam velas, proferiram rezas e fizeram o encantamento.
A intenção, pelo que me lembro, era mais ou menos esta:
— Que o lobo apareça com a pele pintada de vermelho!
Não é que, no dia seguinte, Alice chegou ofegante da escola?
Eu estava por perto, de ouvido atento, fingindo não prestar muita atenção.
— Mãe! Mãe! Deu certo! Aquela menina do grupo, justamente a que eu estava desconfiando… ela chegou hoje na escola com psoríase rosada espalhada pelo rosto!
Eu dei uma risadinha desconfiada, incrédula e curiosa.
— Sério? Que tal… Impressionante!
Na mesa da cozinha, minha mãe retorceu o pescoço em minha direção.
— Impressionante, filinho? E você, Alice? Está com uma cara de assustada…
E falou com a maior calma do mundo:
— Nós fizemos nossa magia, seguimos os passos certos, pedimos ao Universo. Por que haveria algum motivo para ficarem impressionados?
Depois nos lembrou daquela velha história.
— Lembram do povo que subiu a montanha para pedir chuva? Todos rezaram, todos pediram com fé… mas só um menino levou um guarda-chuva.
Fez uma pequena pausa.
— Entenderam? Todos pediram chuva. Mas só ele realmente acreditava que choveria. E choveu!
Então passou a mão nos meus cabelos e falou de um jeito diferente. Não como quem dava uma ordem. Mais como quem aponta um caminho num velho mapa de tesouro:
— Façam uma coisa, meus filhos. Eliminem esse verbo do dicionário de vocês: impressionar-se. Se desejarem alguma coisa, não desejem já duvidando dela.
Olhou para nós e completou:
— Quando acontecer, lembrem: não se impressionem. Agradeçam.
Depois veio aquele risinho misterioso:
— Obra humana…
Uma pausa.
— …em parceria com o Universo.
E foi essa a regra número UM.
A primeira.
A última.
E a única que as bruxas me permitiram conhecer.
Segui minha vida crendo e desconfiando…
Mas, de alguma maneira, seguindo aquele conselho.
E até hoje, quando alguma coisa que desejei, plantei e trabalhei para que acontecesse finalmente acontece, ainda me escapa a primeira sílaba daquela palavra eliminada.
Então fecho os olhos por um instante, respiro fundo e lembro:
fui eu que pedi a chuva!

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