domingo, 9 de agosto de 2026

FORMIGAS E ANEIZINHOS DE METAL



— Agora estou aqui, cuidando de formigas! Que vocês abandonaram aqui para mim!
Continuei conversando com Benício pelo telefone e mostrando as melhorias que tinha feito nos formigueiros. Esponjas, seringas, algodão, grilos, água com açúcar, ovo cozido... Tudo da maneira que ele havia me ensinado.
Antes de irem passar uma semana na casa da tia Andreia, Benício me deixou uma série de instruções para cuidar das Camponotus novaeboracensis. Eram duas colônias: uma que ele comprou e outra que ele mesmo capturou.
Ele ficou bem feliz quando viu que eu, inclusive, tinha diagnosticado algo que poderia até matar uma das colônias e, por mim mesmo, conseguido resolver.
— Que orgulho de você, papai! Muito obrigado mesmo!
Dava para perceber a emoção dele no agradecimento.
— De nada, meu filho. Isso também é um projeto de que estou aprendendo a gostar. E me ajuda a manter a gente conectado!
Pedro, o mais novo, observava a conversa por cima do ombro de Benício, mirando a tela, querendo fazer parte daquele mundo, mas sem saber muito como participar. Eu via que ele estava feliz pelas colônias do irmão, mas parecia que faltava uma ponte entre eu e ele.
Então comentei:
— Poxa, Pedro, viu? Você poderia ter deixado alguma coisa aqui para eu cuidar também!
Ele respondeu, meio envergonhado, meio desafiante:
— Mas você não quis comprar um cachorro para mim!
Bom, isso é verdade!
A regra sobre cachorro aqui em casa é um decreto superior instituído pela Rainha Adriana I. Não tem discussão! Acabei assimilando a regra como minha também.
No Brasil, fazia sentido termos cachorro. O Pichunho ficava no quintal o tempo todo, recusava-se a entrar em casa, devorava ossos, embrenhava-se pelas florestas de maneira quase selvagem. Livre em absoluto!
Aqui no Canadá, um cachorro não cabe na nossa visão prática de mundo. Teria que ficar dentro de casa e, nas nossas muitas viagens distantes e longas para visitar parentes, alguém teria que cuidar dele — como estou aqui cuidando das formigas.
(Eu ainda penso que Pedro pode ter razão.)
Mas, enfim, tento me convencer dos motivos da Adriana para não criar um conflito desnecessário.
Então respondi:
— Você sabe, meu filho, que o Benício foi bem esperto. Sabendo que nunca seria fácil manter um animal em casa — nem cachorro, nem gato, nem peixe, nem tartaruga —, mudou o foco e transformou essa vontade em colônias de formigas. Adaptou-se!
Pedro entende. Não gosta do decreto, mas entende. E sempre arruma alguma outra atividade que o agite por dentro — e por fora.
Mas fiquei matutando sobre qual projeto poderia me conectar diretamente com o menininho sem cachorro.
Enfim, eles voltaram da casa da tia. Iriam passar apenas uma semana aqui e novamente embarcariam, dessa vez para visitar os avós por quase um mês. Todo verão, Adriana pega os meninos e vai programando distintas viagens pelo mundo dos Vilczaks.
Foi nessa semana que percebi que Pedro tinha começado a catar uns lacres de latinhas de bebida.
Sem me dar conta da importância daquilo, perguntei, com certa frieza prática, para que ele queria aquilo.
Ele não soube me dar uma resposta muito objetiva. Disse que queria fazer uma pulseira, uma armadura de cavaleiro medieval...
Adriana depois me contou que as gêmeas da Gisele também estavam colecionando e que talvez fosse algum tipo de competição. Pedro tinha se animado com aquilo.
Cada latinha de água com gás que eu terminava, lá vinha ele, arrancando o lacrezinho e guardando num ziplock.
Em cinco dias, tinha juntado apenas uns dez.
Frustrado com seu desempenho, numa segunda-feira à tarde, perguntou se poderia sair com Benício para procurar latinhas nas lixeiras de recicláveis que os vizinhos deixam na rua para o caminhão recolher na terça bem cedinho.
Deixei os dois irem, desde que não fizessem bagunça nem sujeira e não fossem muito longe.
Fiquei observando pela janela.
Eles se aproximavam das casas meio envergonhados, olhavam para os lados e remexiam as bolsas plásticas com cuidado, quase sem ousar tocar.
Pedro voltou todo empolgado, com mais uns quarenta lacrezinhos. Orgulhoso da ideia e, principalmente, da coragem de executá-la.
Chegou então o dia de partirem para o Brasil.
Passada uma semana, eles já estavam lá e nos falávamos regularmente pelo telefone. Sobre as aventuras, as galinhas, os porcos, as novidades, a parentada, as formigas...
Numa dessas conversas, chamei Pedro em particular:
— Pedro... adivinha o que o papai está fazendo?
Ele tentou algumas respostas, sem sucesso e sem muita paciência.
Então, sem dizer nada, mostrei meu copinho com mais de cem argolas de alumínio.
Por um instante, ele só olhou.
— Sério, papai? Você está colecionando para mim?
— Claro, meu filho!!! Lá no trabalho, os mexicanos bebem tanto refri e tanta cerveja que, cada latinha que eu vejo nas lixeiras, eu me abaixo meio escondido, arranco as argolinhas e coloco disfarçadamente no bolso! Minha meta é juntar duzentos para a gente!
— Que bom, papai! Obrigado! Muito obrigado mesmo...
Na verdade, percebi que ele já havia até se esquecido dos pequenos anéis.
Mas, quando viu que eu ainda lembrava e, mais, estava juntando, rapidamente emendou:
— Aqui eu tô procurando também! Mas acho que não vão deixar eu entrar no avião com eles!
Pedro se emocionou de um jeito que só eu percebo.
Como no dia em que eu finalmente acertei o corte de cabelo que ele queria. Ficou se olhando orgulhoso no espelho, sentindo-se poderoso — e ficou mesmo — e não parava de me abraçar e agradecer.
Agora, sempre que nos falamos, ele me pergunta quantos aneizinhos eu consegui juntar.
Eu ouço outra pergunta:
— Quantas vezes você se lembrou de mim, papai?
Aqui estou, sozinho por mais de um mês, segurando a saudade da maneira mais serena que consigo. Acreditando que posso deixá-los partir porque sei que têm um mundo para conquistar.
Enquanto isso, fico aqui, cuidando das formigas e olhando para o chão em busca de aneizinhos de metal.

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