Minha mãe me contava histórias... muitas, aliás. Repetidas, como sempre. Talvez porque nós gostássemos de ouvi-las outra vez. Ou talvez porque ela realmente não conhecesse tantas assim.
Lembro de algumas. E as contei para os meus filhos. Talvez um dia as conte também para os meus netos.
A Moura Torta, talvez já numa versão personalizada... Rapunzel... A Princesa e a Ervilha...
Mas as histórias de que eu mais gostava eram as da infância dela.
De quando ia pescar camarão nas praias de Cabo Frio. Do sítio em Teresópolis. Das aventuras de menina... e das primeiras aventuras amorosas.
Ela tinha um diário. Na adolescência, quando ainda havia tempo, escrevia nele tudo o que lhe acontecia. E aquele pequeno caderno de memórias tinha um nome: Teco.
Depois vieram o casamento, os filhos, a correria da vida. Quando nasceu seu terceiro filho — eu sou o segundo — já não sobrava tempo para atualizar as novidades do dia a dia para o velho Teco.
Então, dizia ela, passou a me contar.
Imagino que eu tivesse uns dois anos. Talvez ela passasse a mão nos meus cabelos enquanto conversava comigo, do mesmo jeito que antes conversava com o diário. E foi assim que começou a me chamar de Teco.
Esse apelido atravessou minha infância inteira e permanece comigo até hoje.
Eu cresci. Aprontei algumas peripécias. E, com o tempo, ela foi mudando o foco das histórias. Já não eram apenas as aventuras da infância dela. Eram também as nossas.
Ela misturava as lembranças de menina com as travessuras dos filhos, como se tudo fizesse parte da mesma grande história.
Minhas irmãs participaram de cada capítulo dessa aventura. E, quando conversamos entre nós, descobrimos que cada um guarda uma versão um pouco diferente da mesma infância. Um lembra de um detalhe que os outros esqueceram. Outro jura que aconteceu de outro jeito. A memória é curiosa... ela nunca mente por completo, mas também nunca conta exatamente a mesma história para duas pessoas.
Muitas dessas histórias foram se perdendo.
Outras foram ficando mais bonitas cada vez que mamãe as recontava para meus próprios filhos, quase sempre me reservando um pequeno papel de Malasartes.
E eu sorrio.
Ela também me escrevia cartas quando fui para a universidade.
Cartas lindas. Serenas. Fortes.
Como um farolzinho na neblina, foram me guiando pelos tropeções da juventude.
Por falta de tempo para registrar tudo nas folhas do velho Teco, muitas histórias acabaram ficando gravadas apenas em mim.
Mas a memória de um homem não é totalmente confiável.
Por isso eu escrevo.
Para que alguma coisa desse fio invisível que costura nossas almas possa permanecer por, ao menos, mais algumas décadas.
Confesso que, na correria do dia a dia, também nem sempre encontro tempo para cumprir essa pequena missão de registrar as coisas simples que acontecem em nossa família.
São acontecimentos que, muitas vezes, marcam profundamente um pai e uma mãe, mas que talvez meus meninos jamais se lembrassem se ninguém os escrevesse.
Não sei se muitos pais fazem esse tipo de construção da memória. Talvez estejam ocupados demais tentando deixar um patrimônio, uma casa, um exemplo concreto.
No meu caso, gosto de pensar que essas pequenas histórias também fazem parte da herança.
Escrevê-las me faz apaixonar um pouco mais pela própria obra que estamos construindo enquanto família.
Talvez eu encontre outros pais que façam o mesmo. Talvez meus filhos aperfeiçoem essa ideia. Quem sabe...
Só sei que continuo caminhando com aquele pequeno farol que minha madrecita acendeu para mim e que hoje carrego tatuado no tornozelo.
É ele que ainda ilumina minhas lembranças.
É ele que ainda me inspira a continuar contando histórias que conversem com as gerações que já foram... e com aquelas que ainda virão.
E vocês, que me têm carinho e me confiam um pedaço das suas histórias...
Podem me chamar de Teco, querido diário!

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