sábado, 1 de agosto de 2026

Pedro e as galinhas

Depois das minhas crises nos pulmões, resolvemos mudar alguns hábitos aqui em casa.

Comecei a caminhar mais, cuidar da saúde e sugeri que todos nós passássemos a meditar juntos. Cada um tinha um motivo. A Adriana, para aliviar um pouco da ansiedade. O Benício, para exercitar ainda mais o foco. O Pedro... bom... eu só queria que ele conseguisse ficar cinco minutos parado.

Em uma dessas meditações, acompanhávamos apenas o áudio de um guia no YouTube.

Depois de alguns minutos respirando em silêncio, ele disse:

— Procurem uma lembrança que tenha feito vocês imensamente felizes.

Ficamos ali, de olhos fechados, durante uns dez minutos.

Quando terminou, já relaxados, quase sonolentos, o Pedro perguntou:

— Papai, em que você pensou quando ele falou da lembrança feliz?

Respondi sem precisar pensar:

— No nascimento de vocês dois. Foi a primeira e única coisa que me veio à cabeça.

Depois perguntei:

— E você?

Ele respondeu com toda a naturalidade do mundo:

— Eu pensei na casa da Baba... quando fui buscar os ovos das galinhas.

Sorri.

— Foi uma lembrança boa, né?

— Foi.

Fomos dormir.

Mas eu fiquei pensando naquilo.

Vejam...

O Pedro já conheceu resorts, hotéis, praias, museus, parques de diversão. Já fez trilhas, andou de barco, conheceu lugares lindos. Ganha campeonatos de jiu-jítsu, faz amizades com facilidade, vive experiências que muita criança talvez nunca tenha.

E, ainda assim, quando precisou escolher a lembrança mais feliz da vida, não escolheu nenhuma dessas coisas.

Escolheu uma manhã qualquer, no interior de Prudentópolis, indo buscar ovos no galinheiro da Baba.

A gente passa a vida imaginando que a felicidade mora no extraordinário. Na próxima viagem. No próximo passeio. Na próxima conquista. Na próxima compra.

Enquanto isso, uma criança encontra tudo isso num galinheiro.

Talvez a infância saiba coisas que a vida adulta vai esquecendo pelo caminho.

Às vezes, somos nós que complicamos demais a felicidade.