Pedro e as galinhas
Depois das minhas crises nos pulmões, resolvemos mudar alguns hábitos aqui em casa.
Comecei a caminhar mais, cuidar da saúde e sugeri que todos nós passássemos a meditar juntos. Cada um tinha um motivo. A Adriana, para aliviar um pouco da ansiedade. O Benício, para exercitar ainda mais o foco. O Pedro... bom... eu só queria que ele conseguisse ficar cinco minutos parado.
Em uma dessas meditações, acompanhávamos apenas o áudio de um guia no YouTube.
Depois de alguns minutos respirando em silêncio, ele disse:
— Procurem uma lembrança que tenha feito vocês imensamente felizes.
Ficamos ali, de olhos fechados, durante uns dez minutos.
Quando terminou, já relaxados, quase sonolentos, o Pedro perguntou:
— Papai, em que você pensou quando ele falou da lembrança feliz?
Respondi sem precisar pensar:
— No nascimento de vocês dois. Foi a primeira e única coisa que me veio à cabeça.
Depois perguntei:
— E você?
Ele respondeu com toda a naturalidade do mundo:
— Eu pensei na casa da Baba... quando fui buscar os ovos das galinhas.
Sorri.
— Foi uma lembrança boa, né?
— Foi.
Fomos dormir.
Mas eu fiquei pensando naquilo.
Vejam...
O Pedro já conheceu resorts, hotéis, praias, museus, parques de diversão. Já fez trilhas, andou de barco, conheceu lugares lindos. Ganha campeonatos de jiu-jítsu, faz amizades com facilidade, vive experiências que muita criança talvez nunca tenha.
E, ainda assim, quando precisou escolher a lembrança mais feliz da vida, não escolheu nenhuma dessas coisas.
Escolheu uma manhã qualquer, no interior de Prudentópolis, indo buscar ovos no galinheiro da Baba.
A gente passa a vida imaginando que a felicidade mora no extraordinário. Na próxima viagem. No próximo passeio. Na próxima conquista. Na próxima compra.
Enquanto isso, uma criança encontra tudo isso num galinheiro.
Talvez a infância saiba coisas que a vida adulta vai esquecendo pelo caminho.
Às vezes, somos nós que complicamos demais a felicidade.