Pedro tinha uns três anos e estava naquela fase de começar a colorir e aprender o nome das cores.
Em algum momento, por influência geral de seu entorno, aprendeu que aquele lápis bege era “cor de pele”.
Pedro ainda não falava o R. Trocava por I. Parede era “paiede”, buraco era “buiaco” e cor de pele, naturalmente, era “coi de pele”.
Eu, na minha onda de desconstruir as convenções linguísticas dominantes nesse meu pequeno experimento social, comecei pacientemente a explicar que não era muito correto chamar aquele lápis de “cor de pele”.
— Veja, Pedro, por que você chama esse lápis de “cor de pele”? Olha para a nossa pele. Ela não é exatamente dessa cor. A minha pele nem é da mesma cor que a tua. Cada pessoa tem uma cor especial de pele. Existem peles de muitas cores. E as cores têm nomes. Essa aqui se chama bege.
Mostrei meu braço, o braço dele, falei de outras pessoas. Não sei exatamente o tamanho da aula que dei para uma criança de três anos. Provavelmente maior do que precisava.
Mas ele pareceu entender.
Ainda assim, de vez em quando, escapava:
— Coi de pele.
E eu corrigia:
— Bege.
Até que um dia ele estava colorindo e o lápis bege estava perto de mim, fora do alcance dele.
— Papai, pega o lápis...
Parou.
Ficou alguns segundos pensando.
Eu fiquei olhando ele balbuciar o maldito nome da cor que eu havia ensinado. Ele sabia que não podia falar “coi de pele”. Eu já havia explicado várias vezes.
Olhou para o lápis.
Procurou alguma coisa no pequeno catálogo do mundo que já carregava dentro da cabeça.
Então acendeu aquela luz. Quase um EUREKA!
— Papai, pega o lápis... coi de poico pra mim.
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PEQUENO MANIFESTO ANTIETNOCÊNTRICO OCIDENTAL (ACIDENTAL)
(CONTÉM IRONIA)
O episódio merece alguma análise epistemológico-linguística.
Ou, no mínimo, uma tese de mestrado desnecessária.
Aos três anos, Pedro havia compreendido que proibido o antigo significante “coi de pele” e temporariamente extraviado o significante “bege”, estava oficialmente instaurada uma crise semântico-cromática.
O jovem pesquisador precisou recorrer ao método empírico.
E a evidência falou mais alto.
A solução, convenhamos, é epistemologicamente elegante.
Humanos apresentam enorme variabilidade fenotípica e constituem uma referência cromática lamentavelmente inconsistente.
Porcos, ao menos no universo amostral disponível a um menino de três anos, pareciam oferecer resultados estatisticamente mais promissores.
Mas havia algo ainda mais revolucionário acontecendo.
Pedro acabara de promover a completa dessacralização do bege.
Durante gerações, aquele lápis desfrutou do estranho privilégio de representar cromaticamente o Homo sapiens. Pedro, numa única frase, destituiu-o do cargo.
A pele branca perdeu o monopólio semântico da humanidade e, num rebaixamento ontológico particularmente humilhante, passou a dividir sua referência cromática com um suíno.
Não houve militância.
Não houve teoria crítica.
Não houve pós-colonialismo.
Não houve Foucault.
Houve um porco.
E talvez esteja aí a beleza do pensamento infantil.
Nós, adultos, encontramos o mundo quase todo etiquetado e, depois de repetir os nomes por tempo suficiente, esquecemos que alguém, em algum momento, simplesmente decidiu chamá-lo assim.
Crianças ainda não.
Por alguns poucos anos, elas olham diretamente para as coisas.
Eu queria ensinar ao Pedro que “cor de pele” era uma construção linguística imprecisa.
Ele entendeu.
E produziu uma alternativa empiricamente defensável, semanticamente revolucionária e, para nós branquelos, ontologicamente constrangedora:
COI DE POICO.
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